Alice passou o dia inteiro tristonha. Antônio, seu marido, a observa e percebe que de vez em quando uma lágrima rola pela sua face.
Ela já temperou o peru para a ceia, fez panetone, fez mais de uma sobremesa, sendo que quando fez o pudim de leite condensado, aí o chora foi copioso, afinal é a sobremesa preferida de seu filho Luís.
Antônio abraça-a tentando consolá-la e diz:
- Querida, não fique assim, se o Luís não pode vir passar o Natal conosco é porque realmente não está sendo possível! Por acaso você está pensando que ele não, simplesmente porque não quer?
- Não! É lógico que eu sei que ele não vem por motivos justos, mas sabe mãe como é, além da saudade por estar tantos meses longe sem vê-lo, essa data sempre mexe com meu emocional. É Natal!
- Eu sei, eu sei... Você pensa que eu também não estou triste? Claro que estou, meu maior prazer é quando vejop toda minha família reunida, mas esse ano não está sendo possivel, então vamos tentar pelo menos amenizar um pouco essa nossa tristeza e receber a nossa filha, nosso genro, e nossos netos, com a alegria que eles merecem. Agora vá lavar esse rosto lindo e eu vou te ajudar na preparação da ceia.
As horas passam... Anoiteceu!
Alice resolve mandar um e-mail para seu filho ausente. Vai até o escritório, liga o computador e começa a digitar:
Meu querido filho!
Nesse momento senti uma necessidade imensa de conversar contigo. Talvez seja a saudade, como também pode ser preocupação de mãe, que sempre quer sentir que seus filhos estão bem.
Tenho pensado muito em você, e resolvi falar-te através de um modo que você mesmo me disse quando nos deu de presente o computador; o e-mail. Suas palavras foram: "Assim nós podemos conversar mais".
Quero te dizer que a nossa vida é feita de portas. Portas para o amor, portas para a raiva, portas pas o ódio, portas para receber ou mandar pedidos de desculpas, e assim por diante...
Nunca deixe de abrir uma delas, pois você não sabe qual é. Se for a do ódio, assim que abrí-la, não deixe o ódio entrar, ele te fará mal.
Se for da raiva, abra-a, escute seu coração e pense se vale à pena ou não, deixá-la entrar.
A porta de pedidos de desculpas ou perdão abra-a sempre. Talvez seja alguém querendo se desculpar, mas quase sempre essa porta só nos fará bem quando é para nós pedirmos desculpas ou perdão.
Agora a porta do amor... Essa sim deve abrir e colocar um tapete vermelho para que o amor caminhe pelo seu coração.
A da paixão não abra, é volúvel. Cientificamente a paixão dura paenas trinta meses. É diferente do amor, que tem raízes; mas não podemos deixar de cuidar dele, ele sempre está precisando de atenção. E como fazer isso? Não é difícil não... Basta não pensarmos só em nós. O amor é feito para dividirmos com os outros. É como uma planta; precisa de muito trato. Cortar os galhos de: "Falta de tempo, de não gostar de determinadas coisas, de não emprestar nossos ombros, de não participar, etc..." Agora os brotos de carinho, de dar prazer e sentir prazer, de abraçar e deixar ser abraçado, de beijar e deixar ser beijado, de deixar de fazer algo para dar atenção ao outro, etc... Esses devem ser cuidados com muita atenção, pois muitas vezessomos egoístas e não percebemos que o amor está ao nosso lado, e que somente nos dará prazer.
Tem uma porta que é só para nós. É a porta das oportunidades.
Muitas vezes a oportunidade bate para nos ajudar, mas com receio, observamos por uma fresta e não a deixamos entrar. Assim como o amor, essa porta é muito importante e devemos recebê-la de braços abertos.
Meu filho, não o que aconteceu comigo para escrever tudo isso. Será coração de mãe?
Não vou me preocupar se estou certa ou errada, simplesmente escrevi num impulso.
Talvez intuição, nunca se sabe... Ou será o espírito desse dia que nos enche de emoção. Hoje é véspera de Natal, e ainda mais sem a sua presença... Acabei ficando com a sensibilidade à flor da pele.
Perdoa-me se te chateei com essa leitura, mãe é assim mesmo, sempre está achando que os filhos estão precisando de nossas palavras. É a necessidade de sentir que ainda é útil para dar conselhos.
Sou a porta do amor maternal que está batendo. Obrigada por abrí-la.
Beijos e um "Feliz Natal", meu filho!
Alice
O e-mail é enviado.
Alice desliga o computador, retorna para a cozinha, vê se o peru está assado, observa que falta mais um pouco, e vai para a sala. Antônio está colocando os presentes ao redor do pinheirinho todo enfeitado. Ao perceber a presença de Alice, volta-se e pergunta:
- É desse jeito?
- Está perfeito.
- Está mais calma?
- Estou muito emocionada. Acabei de mandar um e-mail para o Luís. Deixei que meu coração falasse.
- Fez bem, querida! Ele vai gostar com toda certeza.
Mal Antônio termina de falar, a campainha toca.
Antônio abre a porta. É Heloísa sua filha, seu genro e as crianças.
Agora a casa está um rebuliço. É barulho de pratos, talheres, copos; sem contar com cheiro gostoso dos quitutes.
Alice dá uma olhada para o relógio...
Antônio percebe e trata de desviar a atenção, perguntando:
- E aí quando vamos comer?
- Mais um pouquinho pai; diz Heloísa. Já está quase pronto.
Esse pouquinho demorou, e agora é Antônio que está apreensivo. Está falatando dez minutos para meia-noite.
O telefone toca, Antônio atende e exclama:
- É para você Alice!
Alice ofegante pega o fone e diz: - Alô...
Do outro lado uma voz responde:
- Oi mãe, sou eu! Quero te desejar um Feliz Natal, e dizer que o melhor presente que ganhei foi o seu e-mail.
- Que bom, meu filho...Feliz Natal para você também!
ENEIDA TAGLIOLATTO
Que bela inspiração Eneida.
ResponderExcluirDigna de uma autora tão maravilhosa em tudo que escreve.
Parabéns pelo texto!
Silvia Trevisani
Não sabia que a minha amiga fosse tão talentosa assim! Fiquei sua fâ!
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